ia.
Pareceu mais curta que a viagem para o sul, talvez por
ter a cabeça em outro lugar. Pyp marcou o ritmo,
galopando, ritmando o passo, trotando e depois
rebentando de novo a galope. Vila Toupeira chegou e
partiu, já com a lanterna por cima do bordel há muito
extinta. Fizeram um bom tempo. A alvorada ainda
estava a uma hora de distância quando Jon vislumbrou
as torres de Castelo Negro à frente do grupo, escuras
contra a pálida imensidão da Muralha. Dessa vez não as
sentia como uma casa.
Podiam levá-lo de volta, disse Jon a si mesmo, mas não
podiam obrigá-lo a ficar. A guerra não terminaria de
manhã, nem no dia seguinte, e os amigos não podiam
vigiá-lo dia e noite. Esperaria a sua hora, faria com que
pensassem que se sentia satisfeito por permanecer ali... e
então, quando relaxassem, partiria de novo. Da próxima
vez, evitaria a Estrada do Rei. Seguiria a Muralha para o
leste, talvez até mesmo ao mar, uma trajetória mais
longa, mas mais segura. Ou até talvez para o oeste, para
as montanhas, e depois para o sul pelos passos de
altitude. Era esse o caminho dos selvagens, duro e
perigoso, mas pelo menos ninguém o seguiria. Não se
aproximaria cem léguas de Winterfell ou da Estrada do
Rei.
Samwell Tarly os esperava nos estábulos velhos,
abandonado no chão e de encontro a um fardo de feno,
ansioso demais para dormir. Ergueu-se e sacudiu-se.
- Eu... estou feliz por terem te encontrado, Jon.
- Mas eu não - disse Jon, desmontando.
Pyp saltou do cavalo e olhou para o céu que clareava,
descontente.
- Dá-nos uma ajuda para tratar dos cavalos, Sam - disse
o pequeno rapaz. - Temos um longo dia pela frente e
nenhum descanso para enfrentá-lo, graças a Lorde Snow.
Quando o dia rompeu, Jon dirigiu-se às cozinhas como
fazia todas as madrugadas. Hobb Três-Dedos não lhe
disse nada quando lhe deu a refeição matinal do Velho
Urso, Naquele dia eram três ovos vermelhos cozidos, com
pão frito, uma fatia de presunto e uma tigela de ameixas
secas. Jon levou a comida para a Torre do Rei. Foi
encontrar Mormont no banco da janela, escrevendo. O
corvo caminhava de um lado para o outro por cima de
seus ombros, resmungando "Grão, grão, grão", A ave
soltou um guincho quando Jon entrou.
- Põe a comida na mesa - disse o Velho Urso, olhando-o
de relance. - Quero um pouco de cerveja.
Jon abriu uma janela que tinha os tapumes corridos,
tirou o jarro de cerveja do parapeito exterior e encheu
um corno. Hobb dera-lhe um limão, ainda frio da
Muralha. Jon o esmagou no punho. O sumo escorreu-lhe
por entre os dedos. Mormont bebia limão na cerveja
todos os dias, e dizia que era por isso que ainda tinha os
dentes,
- Sem dúvida que amava seu pai - disse Mormont quando
Jon lhe trouxe o corno. - As coisas que amamos
destroem-nos sempre, rapaz. Lembra de quando lhe disse
isso?
- Lembro - disse Jon em tom carrancudo. Não queria
falar da morte do pai, nem mesmo com Mormont.
- Vê se nunca se esquece. As verdades duras são aquelas
que se deve segurar bem. Vá buscar meu prato. E outra
vez presunto? Que seja. Está com um ar cansado. Seu
passeio ao luar foi assim tão cansativo?
Jon sentiu a garganta seca.
- Você sabe?
"Saber", disse o corvo dos ombros de Mormont.
"Saber". O Velho Urso bufou.
-Julga que me escolheram para Senhor Comandante da
Patrulha da Noite por ser estúpido que nem um toco,
Snow? Aemon disse-me que partiria. Eu lhe disse que
regressaria. Conheço os meus homens... e também os
meus rapazes, A honra o levou à Estrada do Rei... e a
honra o trouxe de volta.
- Foram os meus amigos que me trouxeram de volta -
disse Jon.
- Acaso disse que tinha sido a sua honra? - Mormont
inspecionou o prato.
- Mataram meu pai. Esperavam que eu não fizesse nada?
- Em boa verdade, esperávamos que fizesse precisamente
o que fez - Mormont experimentou uma ameixa e cuspiu
o caroço. - Ordenei que fosse vigiado. Você foi visto
saindo. Se seus irmãos não o tivessem ido buscar, teria
sido apanhado no caminho, e não por amigos. A menos
que tenha um cavalo com asas como um corvo. Tem?
- Não - Jon sentia-se um idiota.
- Ê pena, um cavalo assim nos seria útil.
Jon empertigou-se. Disse a si mesmo que morreria bem;
isso, pelo menos, podia fazer.
- Conheço a pena por deserção, senhor. Não tenho medo
de morrer.
"Morre!", gritou o corvo.
- Nem de viver, espero eu - disse Mormont, cortando o
presunto com o punhal e dando um bocado à ave. - Não
desertou... ainda.
Está aqui. Se decapitássemos todos os rapazes que vão a
Vila Toupeira durante a noite, só fantasmas
patrulhariam a Muralha. Mas talvez pretenda fugir de
novo amanhã, ou daqui a uma quinzena. E isso? É essa a
sua esperança, rapaz?
Jon manteve-se em silêncio.
- Era o que eu pensava - Mormont tirou a casca de um
ovo cozido. - Seu pai está morto, rapaz. Julga que pode
trazê-lo de volta?
- Não - respondeu, carrancudo.
- Ótimo - disse Mormont. - Vimos os mortos regressar,
você e eu, e não é algo que eu queira ver de novo - comeu
o ovo em duas dentadas e arrancou um pedaço de casca
do meio dos dentes. - Seu irmão está no terreno com todo
o